domingo, 12 de março de 2006

Paixão tardia

Contrariando as regras de Lester Bangs de como se tornar um crítico de rock, assumo minha paixão tardia por uma banda que nem existe mais. Refiro-me aos Libertines que, quando surgiram em 2001, não lhe dei a devida atenção por se tratar de mais um dos incontáveis the-alguma-coisa que apareceram naquele ano.

A paixão está sendo arrebatadora. E foi nos detalhes que eles me pegaram de jeito. Posso enumerar várias passagens que me dão vontade de morrer ouvindo aqueles dois loucos, como, por exemplo, o barulho de papel rasgado na abertura de “Last Post on the Bugle”, o assovio durante o lalalala de “Don’t be Shy”, a letra romântica e junk de “When the lights go out”, a aceleração no andamento de “Campaing of Hate”, a entrada do riff de “The Ha Ha Wall” logo depois daquela abertura viajada e de novo entrada do riff depois de outra passagem viajada no meio da música.

A música feita pelos ingleses é versátil e mostra forte influência de vários momentos importantes do rock. Em “Arbeit Macht Frei” você jura que está escutando Sex Pistols. Em alguns momentos fica totalmente Smiths, depois Cure, depois Clash, depois Kinks. Aí você distrai e já está ouvindo seqüências de acordes do vindos do rock mais clássico imaginável. Esse é um álbum cheio de surpresas agradáveis.

E se tem algo a respeito dos Libertines que merece um parágrafo inteiro, é a dupla Carl Barat/Peter Doherty como vocalistas. Eu sou uma pessoa que sofre profundamente com um fenômeno conhecido como desafinação, por mais proposital que ela seja. Sejam vindas de Belle and Sebastian ou de Nico, as notinhas fora de escala me deixam altamente irritada. Mas nesse caso, tenho que dar o braço a torcer e admitir que Mr. Doherty gritando “Don´t be shy” absolutamente fora do esperado, é um charme só. Eles são charmosos gritando, sussurrando, cantando, assoviando, declamando, ou qualquer outra coisa. Quando uma voz é agradável, ela é agradável e pronto.

Falando em Mr. Doherty, deixo claro que sou mais uma a engrossar o coro que clama o mocinho como gênio. Ouça o disco e saberás do que estou falando. Ele é realmente um ícone dessa geração para os ingleses. Além de tudo é o único músico dos anos 00 com alguma atitude. Há muito tempo não se contabilizava 3 prisões da mesma pessoa num mesmo dia no mundo do rock. Nem Courtney Love conseguiu tal proeza.

Bom, a história do Libertines acaba assim (descobri há poucos dias): Peter Doherty foi mandado embora porque se drogava demais. A banda virou Dirty Pretty Things e o despedido fundou o Babyshambles.

Essa eu estou começando a conhecer. Falo já, já o que achei.